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Desde que a Neneka chegou

Por Equilibra Psicologia

Desde que a gente resgatou a nossa cachorrinha, as nossas noites nunca mais foram as mesmas.

Ela chegou aqui em casa no meio das enchentes do Rio Grande do Sul. Pesava exatamente 1kg e cabia na palma da minha mão.

Ela chegou exausta, doente e no meio de um dos momentos mais tristes da história do nosso estado. Ela tinha medo de tudo. Qualquer barulho fazia ela se encolher. Qualquer movimento mais brusco lembrava ela que o mundo não era um lugar seguro.

Como uma boa psicóloga que passa os dias falando sobre necessidades emocionais, fiz exatamente o que eu faria com qualquer ser que tivesse passado por tantos traumas: tentei convencer ela, todos os dias, de que agora estava tudo bem.

Ela dormia grudada em mim. Tão pequena que eu acordava várias vezes durante a noite só para conferir se ela ainda estava bem. Os meses passaram. Ela cresceu.

Hoje ela continua dormindo com a gente. E, sinceramente, eu prefiro mil vezes uma coberta cheia de pelos e com cheiro de cachorro do que uma coberta perfeitamente perfumada com cheiro de Downy. Talvez você discorde. Tudo bem.

O problema é que ela parece não ter entendido um detalhe importante: ela deixou de ter 1kg. A Neneka consegue ocupar um espaço que desafia todas as leis da física.

No meio da madrugada ela se espreguiça como se estivesse sozinha na cama, empurra a gente com as quatro patas, deita atravessada, suspira, muda de posição umas quinze vezes e, em algum momento da noite, eu sempre acordo equilibrando metade do corpo na beirada da cama, torcendo para a gravidade colaborar comigo por mais algumas horas.

Já acordei algumas vezes com o pescoço travado e a sensação de que participei de uma prova de sobrevivência durante o sono.

E é aí que acontece uma coisa curiosa.

Sempre que o meu marido viaja, minha mãe faz exatamente a mesma proposta.

Ela sabe que eu durmo espremida por causa da Neneka e diz, com aquele jeito cuidadoso que sempre teve comigo:

“Deixa ela dormir aqui em casa hoje. Tu aproveita para descansar de verdade.”

E, às vezes, eu aceito.

Arrumo a cama, coloco o travesseiro bem no meio, olho para aquele espaço enorme e penso: “Hoje eu vou dormir bem.”

Mas o mais curioso acontece na manhã seguinte.

Eu acordo. Viro para o lado.

A cama está inteira só para mim.

O lençol está frio.

Tem espaço de sobra.

Ninguém me empurrou para fora da cama.

Só que, estranhamente, parece que está faltando alguma coisa.

E foi aí que eu pensei em como nós, seres humanos, somos curiosos.

A gente passa tanto tempo tentando eliminar os pequenos incômodos que esquece de perceber que alguns deles caminham de mãos dadas com aquilo que a gente mais ama.

Porque a gente não se apega apenas ao que é confortável. A gente se apega ao que é familiar.

E, às vezes, o que faz a gente se sentir em paz, incrivelmente, não vai ser aquela boa noite de sono, ou aquele silêncio que a gente tanto desejava.

É aquele barulho conhecido, aquela confusão boa e aquela cama apertada que, sem a gente perceber, acabou virando o nosso significado de amor.

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