Trauma
Life is not fair…
Por Amanda Borges Fortes
Reflexões do curso que fiz com Dr. Eckhard Roediger na Alemanha.
Há um fato difícil de engolir: algumas pessoas simplesmente vão sofrer mais do que outras. Algumas crianças crescem em contextos de escassez, onde falta o básico — afeto, alimento, segurança. Vivem em ambientes hostis, onde o medo é rotina e os limites do próprio corpo são ultrapassados.
Algumas testemunham cenas que ninguém deveria ver.
Algumas passam por tudo isso.
Outras, por nada disso.
Felizmente, cresce, cada vez mais, o reconhecimento da importância da psicoterapia no acolhimento e cuidado dessas pessoas. A ciência tem avançado, e os protocolos para o tratamento em saúde mental vêm sendo testados e comprovados com maior solidez. Ufa!
É reconfortante saber que estamos evoluindo. Confesso que me sinto mais esperançosa e confiante de que essas pessoas possam, enfim, receber o cuidado que merecem. Psicólogos: estudo e atualização constante não é opcional na nossa profissão. Precisamos buscar sempre o que há de mais eficaz e baseado em evidências para oferecer um tratamento verdadeiramente transformador para nossos pacientes.
Mas será que esse tratamento tem um fim claro? Existe mesmo um game over para traumas?
Durante o treinamento, uma ideia foi reforçada mais de uma vez — e me tocou profundamente: não buscamos apagar o passado e nem simplesmente nos habituar com ele (como algumas abordagens ainda sugerem). Nosso trabalho é outro: ajudar a transformar esse passado em algo que possa ser integrado à história da pessoa com significado.
A cicatriz talvez nunca desapareça.
E a dor… talvez nunca cesse completamente.
Mas algo muda: ela encontra um lugar.
Ela se torna parte de algo maior.
Ganha um sentido.
O trauma talvez continue aparecendo em alguns dias.
Mas não com o mesmo peso. Não com o mesmo controle.
Porque agora há algo maior: uma direção. Um sentido. Uma escolha de vida baseada em valores.
Como disse Dr. Roediger, com a vasta experiência de quem viu muitas histórias se reconstruírem: a cura acontece quando deixamos de ser definidos pelo que nos aconteceu — e passamos a nos reconhecer por quem escolhemos ser a partir disso.
Talvez o fim do tratamento não seja o fim da dor.
Talvez seja, na verdade, o começo de uma vida que faz sentido apesar dela.
Porque talvez, no fim, a vida não precise ser justa para que ela ainda possa ser boa.
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