Presença
Quando as notificações param…
Por Amanda Borges Fortes
Como alguns sabem, estou na Alemanha, fazendo um curso de Terapia do Esquema Contextual. Tenho mergulhado fundo nessa abordagem — mas isso fica para um próximo post.
Hoje, queria compartilhar algo mais sutil, mas que me atravessou profundamente.
Estou vivendo com cinco horas de diferença em relação ao Brasil. Isso significa que, quando acordo às 7h da manhã aqui, ainda são 2h da madrugada aí. E, durante toda a minha manhã, fico completamente fora do radar. Nenhuma mensagem, nenhuma notificação, nenhuma urgência digital.
Acordo em silêncio. Tomo meu café sem pressa. Caminho pelas ruas observando as árvores, as pessoas, o céu. Estudo. Leio. E sabem o que eu descobri?
Eu tenho tempo.
De verdade. Essa foi uma descoberta surpreendente, porque eu costumava viver com a sensação de que eu não tinha tempo pra nada.
Mas o meu dia aqui tem as mesmas 24 horas que o de lá, certo? Então, o que mudou?
Acho que a resposta é que, por boa parte do dia, não gasto tempo no celular. Fico longe daquele mundo paralelo onde vivemos quase sem perceber. Aquele onde respondemos mensagens enquanto fazemos xixi, assistimos vídeos enquanto comemos, mandamos áudios enquanto dirigimos…
Quem já me ouviu falando sabe que sou longe de ser uma crítica ferrenha das tecnologias — inclusive, fiz meu mestrado sobre o uso de telas e bem-estar, e acredito fielmente na potência das conexões digitais e na facilidade que elas trazem pro nosso cotidiano. O problema não é a tecnologia em si — é quando a gente perde a capacidade de escolher quando e como usá-la.
Então, não se trata de excluir o digital, mas de recuperar a escolha. De voltar a ocupar os espaços vazios com presença. Com escuta. Com respiração.
A Terapia do Esquema Contextual chama atenção para os modos automáticos que usamos para evitar desconfortos, fugir da dor e preencher o vazio. E o uso excessivo das tecnologias pode ser exatamente isso: uma estratégia de enfrentamento pouco consciente, que nos afasta da experiência do aqui e agora.
Um simples fuso horário, que silenciou as notificações, acabou sendo um inesperado treinamento de mindfulness.
E talvez o mais bonito disso tudo seja descobrir que, ao silenciar os sinais digitais, a vida nos envia outros sinais. Mais sutis. Mais profundos. Mais nossos.
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